3.2.14

Texto - A aldeia do "Zé Bigodes"


O Audi sport, bestialmente rutilante, tinha galgado os 600 km em pouco menos de 5 horas. A façanha estava bem expressa nos olhos semi-cerrados e semblante radioso do Zé Rito; voltava à sua terra e sentia-se nele a toda a felicidade do mundo!
 

Chegáramos a Miranda do Douro ainda a tempo de almoço. Depois, iríamos a Castelo Branco, aldeola daqueles sítios onde os pais viviam.
 

E ai estamos nos a entrar pelo único café do lugarejo, * O Café Central* onde o dono, o Zé lambretas” fazia “ca destes petiscos detrás da orelha”…
 

Zé Rito, no meio de grande algazarra, faz uma entrada triunfal e é acolhido melhor que qualquer vencedor dos jogos para-olimpicos da véspera… O clamor é intenso!
 

“Vai um copo, Zé? -  Claro Zé, um, dois, três… o que for necessário pr’a malta!” Vamo lá!
 

“E o teu amigo “cara pálida”, também vai beber connosco, na é verdade?! É uma cerveja, na é?”. E antes que tenha podido esboçar qualquer tipo de preferência, já estava com a “Sagres” na mão.
 

O Zé Bigodes gargalhava, bebia, gritava e tinha a sua graça… Era um tipo mediano, largo, de barriga proeminente, bigode farfalhudo, e bochechas escarlates.
 

De repente interpela-me com enorme vozeirão: Antão o meu amigo é do sul… E gosta de futebol, claro!!! Pelo tom imperativo compreendi que não se tratava de uma pergunta… E continua: Antão o que pensa do Jordão?
 

Meio intimidado pelo ambiente, pensei duas vezes, e tive a felicidade de responder que sim senhor, o Jordão era um belíssimo jogador. Caiu no goto do Zé Bigodes; ta aprovado; e vai mais uma rodada!
 

Afoitei-me: “E vai também uma rodada à saúde do Zé Bigodes”! Os aplausos fizeram estremecer o estabelecimento… Uf, pensei, desta já me sai (tinha presente que o Jordão foi do meu clube e jogava agora no Sporting).
 

O tempo passava e estava a chegar o momento da última prova. O sol tinha desaparecido há muito quando o Zé Bigodes decidiu que era tempo de passar à sueca. Formou a sua equipa e designou os adversários: Zé Rito e eu.
 

Confesso que de sueca pouco conheço; os jogos, ditos de “sociedade” pouco ou nada me interessam; mas jogar contra o Zé Bigodes, em “Castelo Branco” com cartas espanholas e sebentas foi um dos grandes desafios da minha vida…
 

Ganharam (ainda bem) por dois a um…
 

Passei no segundo teste…
 

Tanto mais que no dia seguinte viríamos a saber que o Zé Bigodes estava a monte. Um jovem da aldeia tivera a ousadia de lhe dizer que “tinha um filha muito bonita”.
 

No acto sacou do pistolão que sempre o acompanhava e deu um tiro na cabeça do rapazola.
 

Retrospectivamente pensei na sorte que tinha tido na véspera! Em Trás-Os-Montes não se brinca com coisas sérias: futebol, bebida, cartas e mulheres.
 

Bordeaux, 3 de Fevereiro de 2014.
 

JoanMira

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