9.4.12

Biarritz. Há 50 anos que aqui é mais bolos. Agora de aniversário

Rui Roque Silva, de 75 anos, lembra-se de ver a Biarritz transformada em sala de estudo por alunos famosos da Escola Secundária Padre António Vieira, ali perto. “O Durão Barroso, o Santana Lopes, o Francisco Louçã... andavam aqui na escola e vinham cá comer e estudar”, conta o dono da pastelaria que abriu há 50 anos em Lisboa. “Costumávamos até ter um tabuleiro com bolas de Berlim e eles naquele tempo encostavam-se e sacavam uma sem pagar”, ri-se. Alguns desses clientes continuam a frequentar a pastelaria mais famosa de Alvalade e, uma vez, Rui até confrontou um deles, que prefere não identificar. “Perguntei--lhe: ‘Então o senhor chegou a comer aqui uma bolazinha de borla?’ E ele riu--se. Eram outros tempos.”
A 6 de Abril de 1962, a Biarritz era inaugurada no Largo Frei Heitor Pinto, também conhecido como Largo da Igreja pelos moradores de Alvalade. “Lembro--me do primeiro dia que vim cá”, diz Graciete Vieira, de 88 anos, uma das clientes mais antigas da casa, sentada numa mesa da pastelaria que não é a sua habitual – “costumo ficar ali ao pé da janela”, aponta. “Era o café mais jeitoso daqui, os empregados eram atenciosos e passei a vir todos os dias tomar a bica. Até me deram a alcunha de senhora da bica.”
Depois de se reformar, Graciete passou a ir ainda mais vezes à pastelaria e agora é difícil não encontrá-la lá sentada. “Já se passaram aqui tantos episódios... Por duas vezes até tiveram de ligar para o 112 por minha causa”, ri-se Graciete. “É que sabe, como moro sozinha fico a pensar nos gatunos que andam por aí durante a noite e depois só adormeço de manhã, quase à hora de me levantar”, continua. “Quando venho para aqui e as minhas amigas falam comigo, começo a revirar os olhos. Já julgaram que tinha morrido. Mas chego ao hospital e não tenho nada.”
Quando abriu, a pastelaria pertencia ao irmão de Rui e a mais quatro sócios que depois venderam a sua parte. “O meu irmão era empregado no Martinho da Arcada e depois fundou isto e foi-me buscar à pastelaria Smart”, conta Rui. “Foi uma casa que já naquele tempo custou muito dinheiro, o objectivo era criar uma casa fina e na altura só havia a Versailles e a Bénard. Aqui à volta então não havia nada.”
O nome foi um desses antigos sócios que deu e Rui não consegue explicar porquê. Talvez para reforçar esse ambiente chique, já que na zona eram conhecidos por ser “os careiros”, explica Rui. “Havia aqui todas as bebidas do melhor”, recorda. “A empresa Costa Campos, que fornecia champanhe, licores e vinhos para os aviões, vinha aqui comprá-las porque tínhamos de tudo.”
Hoje em dia são os bolos de fabrico próprio que atraem muita gente. “A especialidade é o Biarritz, um bolo rectangular coberto com doce de ovos.”
Os empregados mais antigos da casa têm pouco tempo para descansar porque está sempre a chegar gente à esplanada. Mesmo assim, nada comparado com outros tempos, quando António Carrilho, empregado de mesa na Biarritz há 32 anos, chegava a levar “dez ou quinze cafés de uma vez”. Dos clientes assíduos da casa, lembra-se logo do nome de Simone de Oliveira. Curiosamente, já roubaram o telemóvel à actriz na esplanada da pastelaria durante uma entrevista. “É uma coisa que não podemos controlar, mas ficamos a sentir-nos mal com isso”, diz Leonor, que nunca trabalhou na pastelaria mas que vai lá quase todos os dias.
Quando o i visita a Biarritz há uma ocasião especial: a celebração dos 46 anos de casados de Rui e Leonor numa longa mesa com familiares, entre eles o filho Pedro Roque Silva, outro dos donos. Mas a verdadeira festa vai ser a dos 50 anos da pastelaria na próxima terça-feira, dia 10. “Vamos fazer um almoço e convidámos os presidentes da câmara, o actual e os antigos. Vem o Carmona, o Santana Lopes, o João Soares, também o Fernando Seara que é cliente habitual...”, enumera Leonor. O almoço é só para convidados VIP, mas às 19h00 os clientes vão poder soprar as 50 velas da pastelaria. E comer o bolo.

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